A “greve das oito horas” foi longa e repreendida violentamente.
Por: Ana Cláudia Moreira Cardoso | DMT em debate
A greve dos carregadores de café, na Companhia Docas do Porto de Santos, teve início no dia 9 de setembro de 1908 e acabou em 6 de outubro do mesmo ano.
A Cia. das Docas, empresa de capital estrangeiro, desde o início XX detinha o monopólio da exploração da estiva. Mais tarde, ela passou a abranger todo o sistema de transporte das mercadorias até o porto.
Podemos dizer que a greve teve seu início mesmo antes de começar. Em função de rumores sobre um possível movimento paredista, em 28 de junho o governo federal enviou a Santos um barco com 100 fuzileiros navais (2). Entretanto, não havia nenhum movimento, pois a assembleia tinha rejeitado sua realização.
Uma segunda assembleia foi realizada, e nela decidiram que a greve seria feita no período de safra do café. No que se refere às reivindicações, o foco era a redução da jornada para oito horas – considerando que estas chegavam a 15 horas diárias – além de aumento salarial e rejeição do pagamento por tarefa.
Os trabalhadores também reivindicavam que não fossem obrigados a carregar mais de um saco por vez. Afinal, como vemos na imagem abaixo, a regra era carregar diversos sacos ao mesmo tempo, levando à fadiga extrema e, claro, a problemas de saúde tanto nas costas quanto nos braços e pernas.
Fonte: https://www.santos.sp.gov.br/?q=noticia/historia-mostra-que-santos-e-pioneira-na-luta-operaria-no-brasil
Em 29 de junho chegava em Santos um trem com praças de infantaria e cavalaria da Força Pública. Entretanto, dado a ausência de mobilização, em 7 de julho a infantaria foi dispensada.
Entre esse momento e o início da longa greve, foram realizadas três paralisações de curta duração.
Então, em 09 de setembro, iniciou-se a greve. Logo em seguida começam a ser reenviados praças da infantaria e cavalaria. A Docas também convocou trabalhadores de outras empresas para trabalharem no lugar dos grevistas. Poucos dias depois, foram atracando cargueiros trazendo centenas de fuzileiros navais e praças de cavalaria, fortemente armados.
No dia 15 de setembro, o jornal “A Tribuna” relata:
“Em diversas horas do dia houve correrias pela cidade provocadas pela polícia. Os operários continuam firmes, não cedendo diante da abominada atitude da Docas que lhes não quer conceder, como deveria, as oito horas de trabalho“. (1)
Segundo historiadores, a greve contou com o apoio de diversas categorias profissionais como carroceiros, estivadores, trabalhadores da construção civil, da limpeza pública, têxteis, condutores e cobradores de bonde e padeiros. Assim, somaram mais de 7 mil pessoas nas ruas participando da manifestação (2).
A repressão foi extremamente forte, resultando em 8 mortes, mais de uma centena de feridos e 800 trabalhadores presos. Após 27 dias de muita luta e solidariedade, a greve foi encerrada sem que os trabalhadores tivessem conquistado suas reivindicações.
Apesar desse desfecho, este movimento, assim como outros realizados por diversas categorias profissionais, contribuíram para que o Brasil, anos após, aprovasse a jornada de 08 horas diárias.
Notas:
- https://www.novomilenio.inf.br/santos/h0156s.htm
- Artigo de André Rosemberg: https://seer.ufu.br/index.php/historiaperspectivas/article/view/24975/13850
Ana Cláudia Moreira Cardoso é socióloga, pesquisadora e formadora sindical. É membra do Observatório do Trabalho e da Classe Trabalhadora – IES-USP e da Academia Latinoamericana de Estudios sobre Riesgos Psicosociales en el Trabajo.
Publicado em 10/09/2026
ABET Associação Brasileira de Estudos do Trabalho