29 de outubro de 1963: Inicia a Greve dos 700 mil em São Paulo

Mais do que uma reivindicação salarial, o objetivo era unificar a luta dos trabalhadores da indústria.

Por: Ana Cláudia Moreira Cardoso


No dia 29 de outubro de 1963, trabalhadores e trabalhadoras do setor industrial da cidade de São Paulo iniciavam a “Greve dos 700 mil”.

Os trabalhadores já vinham agindo de forma unificada em torno da Confederação Nacional dos Trabalhadores na Indústria (CNTI) e do Pacto de Ação Conjunta (PAC). A demanda ao patronal era para que houvesse apenas uma negociação coletiva (unificada) abrangendo todos os setores representados pela CNTI.

Em São Paulo, a CNTI agrupava 79 sindicatos de 14 categorias profissionais – abrangendo em torno de 700 mil trabalhadores (1). Dentre os setores, havia: metalúrgico, vestuário, construção, urbanas, extrativas, têxtil, borracha, papel, vidro, químico, gráfico e marcenaria.

A intenção da unificação era fortalecer as entidades representativas da classe trabalhadora e garantir melhora nos direitos para aqueles trabalhadores inseridos em setores com convenções coletivas piores – e sindicatos mais fracos.

Também visava fortalecer a negociação e evitar a ida à Justiça do Trabalho (2), isto é, ao dissídio coletivo. Afinal, a entidade vinha sendo muito criticada pelos sindicatos, inclusive sendo apelidada de “Sucursal da Federação das Indústrias” (3).

O contexto em que a greve ocorre não era favorável. O presidente ainda era João Goulart, porém, já no início do ano seguinte, os militarem deram um Golpe que depôs Goulart. Esta foi a última grande paralisação antes do Golpe de 1964 (2).

No início de outubro de 1963, diante da demanda pela unificação em torno da CNTI, os empresários, representados pela Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), colocaram-se contrários a realizar uma única negociação coletiva pois sabiam que esta mudança fortaleceria a classe trabalhadora.

Dada a resistência patronal diante da unificação, e, igualmente, em conceder o reajuste demandado, os trabalhadores, em assembleia, votaram pela deflagração da greve. Com a inflação passando os 70% ao ano, a demanda era por reajuste de 100% e o direito de pagamento de férias em dobro.

A greve, iniciada na cidade de São Paulo, acabou alastrando-se por algumas cidades do interior do estado.

Da parte do governo federal, o qual já estava numa situação difícil, este

“se via numa encruzilhada política: defender a ilegalidade da greve para angariar a simpatia das elites econômicas, ou se manter ao lado dos sindicatos, buscando restaurar o apoio das classes trabalhadoras, que vinha se deteriorando ao longo dos últimos meses” (2).

A greve durou 5 dias e foi para o dissídio coletivo. Em votação apertada, os juízes do TRT-2 julgaram a CNTI ilegítima para seguir no processo. Apesar dessa decisão, a greve foi reconhecida como legal e houve decisão favorável à unificação das data-bases dos sindicatos que estavam na base da CNTI. Então, todos os dissídios de cada categoria profissional definiram o reajuste comum de 80%. Finalmente, o Tribunal demandou aos empregadores que não “punissem os seus empregados em virtude da greve eclodida”.

Assim, o acordo foi homologado em 20 de novembro de 1963. E, apesar da CNTI não poder estar à mesa nos dissídios coletivos que se deram por categoria profissional, do ponto de vista político ficou evidente a conquista de importante espaço no processo de representação e negocial.

Para conhecermos um pouco mais sobre a Greve dos 700 mil:

Ana Cláudia Moreira Cardoso é socióloga, pesquisadora e formadora sindical. É membra do Observatório do Trabalho e da Classe Trabalhadora – IES-USP e da Academia Latinoamericana de Estudios sobre Riesgos Psicosociales en el Trabajo.


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Data 03/11/26

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