19 de maio de 1915: Nascimento de Nestor Vera – sindicalista rural

Ana Cláudia Moreira Cardoso | DMT em debate


Nestor Veras esteve na luta pela distribuição justa da terra e, por esse motivo, foi brutalmente torturado e assassinado pela ditadura militar.


Nestor Veras nasceu em 1915, participou ativamente da luta pela distribuição justa da terra e, por esse motivo, foi brutalmente torturado e assassinado pela ditadura militar em abril de 1975. Sua trajetória de vida revela diversos aspectos da sociedade brasileira, sendo que muitos deles continuam presentes: ausência de direitos efetivos no campo, ausência de reforma agrária, desigualdade, assassinatos de trabalhadores rurais, ditadura militar, trabalho análogo à escravidão, desproteção aos direitos trabalhistas, precarização laboral, luta pela terra, organização dos trabalhadores e sindicatos.

Filho de imigrantes, Nestor Veras nasceu em Ribeirão Preto, no interior do Estado de São Paulo, numa região predominantemente agrícola. Nessa localidade, os trabalhadores, a maior parte imigrantes e brasileiros escravizados libertos, na busca por um trabalho decente, percorriam as cidades buscando escapar das condições de trabalho muito parecidas com aquelas presentes no período escravocrata. No início dos anos 1930, sua família vai para a região da Alta Sorocabana para trabalhar nas fazendas de café, e depois segue a expansão da estrada de ferro até o porto, na cidade de Santo Anastácio onde, mais tarde, Nestor seria vereador.

Vindo de família de trabalhadores rurais e sendo, ele mesmo, um trabalhador rural, muito cedo sentiu a injustiça e a desigualdade relacionadas à posse das terras no Brasil, onde poucos detinham a quase totalidade das terras. Na ausência de um poder governamental que tivesse a intenção de bem distribuir a terra, os grandes latifundiários se apropriaram de extensões cada vez maiores de terras.  Para fazer frente a essa situação, Nestor Veras percebeu que a única possibilidade de ação seria a coletiva. E foi assim que passou a atuar na fundação das primeiras formas de organização das Ligas Camponesas, foi membro do Partido Comunista Brasileiro (PCB) em 1946, secretário geral da União dos Lavradores e Trabalhadores Agrícolas do Brasil (ULTAB) e fez parte da primeira diretoria da Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura (CONTAG), quando da sua fundação, em 1963.

Essas organizações tiveram um papel essencial no campo, dado que os trabalhadores, além de não terem direito à terra, permaneceram por muitos anos fora das políticas públicas e da legislação trabalhista, mesmo após a implementação da Consolidação das Leis Trabalho, em 1943. Tal situação explicitava a desvalorização e a negligência governamental em relação ao trabalho rural, mesmo se tratando de um país essencialmente agrário, com a maior parte da população vivendo no campo e tendo a economia fortemente dependente dos trabalhadores rurais.

Nesse contexto, foi se constituindo uma articulação entre pequenos agricultores, assalariados, posseiros, meeiros, entre outros, resultando na criação de sindicatos, associações de lavradores e ligas camponesas já na primeira metade do século XX, muitas vezes em alianças com partidos de esquerda ou setores da Igreja Católica que seguiam a Teologia da Libertação.

Em meados da década de 1940, Nestor foi eleito vereador na cidade de Santo Anastácio (SP) e concorreu a uma vaga de deputado estadual pelo Partido Comunista do Brasil (PCB) nas eleições de 1947. Posteriormente, quando o partido foi declarado ilegal, Nestor teve seu mandato cassado, mantendo a sua atuação na luta pela reforma agrária e na defesa dos direitos dos trabalhadores rurais. Nessa época, foi responsável pelo jornal “Terra Livre” que havia sido criado pelo PCB para discutir os temas agrários brasileiros, e realizou viagens participando de cursos de formação política na Bulgária e em Moscou, na primeira metade dos anos 1960.

Sua trajetória nos traz outra questão relevante para a sociedade brasileira, qual seja, a ausência da reforma agrária, mantendo muitas terras nas mãos de poucos. Em 1961, Nestor Veras – juntamente com outros militantes, como Francisco Julião, Armênio Guedes, Dinarco Reis e Alberto Passos Guimarães -, participou da comissão sobre reforma agrária no congresso camponês e, em seguida, da elaboração da Declaração do I Congresso Nacional dos Lavradores e Trabalhadores Agrícolas, contendo questões específicas a respeito da reforma agrária. A ausência da reforma agrária, no contexto atual, aliada a sérios problemas de fiscalização e uma cultura latifundiária violenta, possibilita a continuidade do conflito no campo, resultando na morte de trabalhadores e lideranças.

A vida, assim como a morte de Nestor Vera, evidencia mais um problema da sociedade brasileira: a violência cometida pelo regime militar no Brasil. Em meados de 1964, por meio do Ato Institucional-1 (AI5), editado por esse regime, Nestor foi cassado e seus direitos políticos foram suspensos por dez anos, sendo ainda condenado a 5 anos de reclusão pela Lei de Segurança Nacional, no processo conhecido como “Cadernetas de Prestes”. Obrigado a viver na clandestinidade, assim como sua família, isso não foi suficiente para protegê-los. Em abril de 1975 Nestor Vera “desapareceu”, isto é, foi preso pelo Departamento de Ordem Política e Social (DOPS), torturado e assassinado. Estes acontecimentos, já imaginados à época pela sua família e por amigos, dado que tantas outras pessoas passavam pela mesma violência, só foi revelada em 2012 pelo próprio ex-delegado do DOPS.

A atualidade dos problemas analisados na trajetória de Nestor Veras explicita a urgência da ação governamental na distribuição da terra, criação de políticas públicas específicas para o campo bem como a ampliação da fiscalização obrigando os empregadores a cumprirem a legislação trabalhista e impedindo o abuso, a violência e a escravidão.

Data da publicação: 19/05/2026


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