Por: Marcos Freitas Pereira | Site Teoria e Debate
Este artigo propõe um diálogo comparativo entre quatro leituras do capitalismo, a de Maurice Dobb sobre a transição do feudalismo, a de Karl Marx sobre a gênese estrutural do modo de produção capitalista, a de Nancy Fraser sobre a fronteira entre exploração e expropriação, e a de Fernando Haddad sobre a intensificação industrial contemporânea e a fragmentação das classes trabalhadoras. Argumenta-se que cada autor responde a uma pergunta distinta, respectivamente, como o capitalismo emergiu, como ele estrutura a extração de valor, onde estão seus limites constitutivos e como ele se transforma sem se superar e que a leitura conjunta revela tanto complementaridades produtivas quanto tensões genuínas, sobretudo entre explicações endógenas e explicações centradas na extração externa (colonial, periférica, reprodutiva). O artigo não busca harmonizar os quatro autores, mas situar precisamente onde concordam, onde se completam e onde divergem.
Sumário: Introdução | 2. Dobb e o debate da transição: ruptura como diferenciação interna | 3. Marx e a gênese estrutural do capitalismo | 4. Fraser e a ampliação da fronteira do capitalismo: exploração e expropriação | 5. Haddad e a intensificação industrial: acumulação primitiva periférica e fragmentação de classe | 6. Síntese comparativa: complementaridades e tensões | 7. Uberização, MEI e o horizonte meritocrático: uma ilustração brasileira | 8. Considerações finais
Ocapitalismo tem sido interrogado, ao longo de quase um século de teoria crítica, a partir de perguntas distintas que raramente são colocadas lado a lado. Maurice Dobb pergunta como e por que o capitalismo emergiu das relações feudais. Karl Marx pergunta como o capitalismo, uma vez constituído, estrutura a extração de valor a partir do trabalho. Nancy Fraser pergunta onde estão os limites do próprio conceito de capitalismo o que ele inclui e o que exclui de sua contabilidade oficial. Fernando Haddad pergunta como o capitalismo se transforma sem deixar de ser, em sua lógica mais profunda, industrial. São perguntas complementares, mas não equivalentes, e a tentação de tratá-las como um único argumento contínuo, da gênese à atualidade, obscurece tensões teóricas que merecem ser explicitadas.
Este artigo segue essa ordem: uma seção para cada autor, seguida de uma síntese comparativa que organiza as convergências e, sobretudo, as divergências entre eles. O fio condutor é o conceito de acumulação primitiva, que aparece, sob diferentes nomes e com diferentes extensões, em todos os quatro, de Dobb, que o relativiza, a Fraser e Haddad, que o generalizam em direções distintas.
Marcos Freitas Pereira é Economista (PUC-SP), mestre pela Universidade de Alcalá, doutorando na UNINI México.
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Publicado em 21/07/26
ABET Associação Brasileira de Estudos do Trabalho