Culto à hiperprodutividade é reflexo de desigualdades múltiplas. País registra, por ano, afastamento de mais de meio milhão de trabalhadores por transtornos mentais. Excesso de sofrimento e esgotamento não podem continuar a ser vistos como “dedicação”
Por: Vitória Bragi | Outras Palavras
Imagem: Donna Grethen/Ikon Images
Expandido no discurso da meritocracia como escolha pessoal e virtude moral, a cultura da hiperprodutividade é um reflexo das desigualdades materiais e sociais. Porque a necessidade de produzir sem parar não é uma escolha de vida, é uma imposição para a sobrevivência. A falta de poder aquisitivo, estabilidade ou estrutura econômica justa mantém as pessoas em estado de alerta constante, já que dentro dessa realidade ter o mínimo e não ter nada é um limite muito tênue.
O cenário atual do Brasil assusta, dados do Ministério da Previdência Social mostram que, em 2025, o país ultrapassou a marca de 534 mil a 546 mil afastamentos trabalhistas decorrentes de transtornos mentais e comportamentais, com ansiedade liderando isolada ultrapassando 166 mil casos (alta de quase 18% em relação a 2024). Esse grande número de afastamentos levou o governo a tomar medidas para melhorar as políticas de fiscalização, como a atualização da Norma Regulamentadora NR-1, que entrou em vigor em maio de 2026. Sua atualização mais recente, obriga as empresas a incluírem a prevenção de riscos psicossociais (como burnout, assédio moral, estresse e sobrecarga) no ambiente de trabalho, sujeito a penalidades caso negligenciado.
No primeiro trimestre de 2026, os dados apontam mais de 105 mil afastamentos nos três primeiros meses, com a ansiedade continuando a responder por mais de 30% de todas as concessões do período. Esse excesso de sofrimento não pode continuar sendo visto como dedicação. Noites mal dormidas, falta de descanso, ansiedade e estresse afetam gravemente a capacidade cognitiva virando autoflagelação psicológica. Dentro desse cenário, a luta por direitos e políticas públicas torna-se uma questão de sobrevivência e transformação.
Estudos publicados no Journal of Sleep Research e pela Harvard Medical School evidenciam que passar 24 horas sem dormir, ou manter uma rotina de sono de apenas 5 a 6 horas por noite, prejudica o desempenho cognitivo ao equivalente a uma taxa de 0,10% de álcool no sangue, o que é acima do limite legal para dirigir. A privação de sono compromete a memória, a tomada de decisão, o controle inibitório e a atenção sustentada. Além disso, dados da Lancet Commission on Global Mental Health estimam que a perda de produtividade decorrente da ansiedade e da depressão custam cerca de 1 trilhão de dólares por ano à economia global, um impacto que, no Brasil, traduz-se em bilhões de reais anuais consumidos por benefícios previdenciários e dias parados de trabalho.
Com a tecnologia em alta e o trabalho remoto, a fronteira entre a vida pessoal e a profissional desapareceu. A expectativa implícita é de disponibilidade total. A instabilidade do mercado de trabalho ainda alimenta a sensação de que, se você parar para descansar, será substituído por alguém que topa produzir mais por menos. E se você adoece porque trabalha 12 ou 14 horas por dia sob metas inalcançáveis e assédio velado, a narrativa dominante faz você acreditar que o problema é a sua “incapacidade de aguentar a pressão”.
O neuropsiquiatra e filósofo Byung-Chul Han, em “A Sociedade do Cansaço”, evidencia como a cultura do desempenho extremo faz o indivíduo se cobrar até o esgotamento.
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Publicado em 17/08/26
ABET Associação Brasileira de Estudos do Trabalho