Por Erik Chiconelli Gomes | Outras Palavras
Não é o que um vasto estudo sugere. PIB explica somente 5% da variação internacional das horas trabalhadas. Reduzir a jornada é o resultado de disputas sociais. Delas dependem os direitos a estudar, aposentar-se e libertar as mulheres da prisão domiciliar
Durante décadas, a economia do desenvolvimento operou com uma intuição simples. Países que enriquecem trabalham menos. A intuição tem lastro histórico, aparece nas séries de longo prazo das economias industriais e organiza boa parte do debate público sobre jornada. Um artigo publicado em 2026 no The Quarterly Journal of Economics, assinado por Amory Gethin e Emmanuel Saez, submete essa intuição a um teste de escala inédita. Os autores reuniram cerca de 2.600 pesquisas domiciliares para construir uma base sobre horas trabalhadas em 160 países, cobrindo 97% da população mundial, com séries de mais de vinte anos para 86 deles (Gethin; Saez, 2026, p. 11). O resultado desloca a pergunta. Interessa menos ranquear países por horas trabalhadas do que entender por que a duração do trabalho varia tanto entre economias de renda parecida.
A definição de trabalho adotada precisa ser explicitada antes de qualquer leitura dos números. São contabilizadas as horas dedicadas à produção de bens e serviços que entram no PIB, o que inclui o trabalho agrícola não remunerado quando gera bens, mesmo destinados ao próprio consumo. Os serviços domésticos não pagos ficam de fora. Os autores registram que a base “exclude unpaid home services such as cleaning, cooking, and taking care of children or elderly family members” (Gethin; Saez, 2026, p. 3), ou seja, exclui os serviços domésticos não remunerados de limpeza, preparo de alimentos e cuidado de crianças ou de familiares idosos. A fronteira é convencional e segue as contas nacionais, mas tem consequência direta sobre como se lê a desigualdade de gênero em tudo o que vem depois.
Os agregados globais dão a dimensão do objeto. Cerca de 59% da população adulta mundial está ocupada, e quem trabalha cumpre em média algo próximo de 42 horas semanais. Distribuídas por toda a população adulta, essas horas equivalem a aproximadamente 25 semanais por adulto (Gethin; Saez, 2026, p. 3). Homens respondem por 65% das horas produtoras de PIB e mulheres por 35%. A maior parte dessa distância vem da margem extensiva, do fato de que menos mulheres estão empregadas. Entre elas, 48% estão ocupadas, contra 71% dos homens. Considerando apenas quem trabalha, a diferença encolhe para 37 horas semanais femininas contra 45 masculinas (Gethin; Saez, 2026, p. 13).
O achado que desestabiliza a leitura convencional aparece na comparação entre países. As horas trabalhadas por adulto caem apenas ligeiramente conforme cresce o PIB por adulto. Nos termos do estudo, “hours worked decline slightly with GDP but are only weakly correlated with development overall” (Gethin; Saez, 2026, p. 4), isto é, as horas declinam de forma modesta com o PIB, mas guardam correlação fraca com o desenvolvimento tomado em conjunto. A elasticidade estimada fica em torno de -0,04 no corte transversal e de -0,01 no painel de países acompanhados ao longo do tempo. O PIB responde por algo próximo de 5% da variação internacional das horas trabalhadas e por menos de 1% da variação histórica dentro de cada país (Gethin; Saez, 2026, p. 4). Nada disso demonstra que o crescimento seja incapaz de reduzir jornadas. Mostra uma associação fraca e uma heterogeneidade grande entre países situados em patamares de renda semelhantes.
A estabilidade agregada esconde movimentos internos de sinais opostos. Quando a população é dividida por faixa etária, aparecem duas quedas nítidas e uma persistência inesperada. Jovens de 15 a 19 anos e pessoas de 60 anos ou mais trabalham menos nos países mais ricos, com elasticidades em torno de -0,3 nas duas pontas (Gethin; Saez, 2026, p. 24). Adultos de 20 a 59 anos, que respondem por cerca de 70% das horas trabalhadas no mundo, não apresentam correlação com o nível de renda. Entre os jovens, a variável mais fortemente associada às horas trabalhadas é a frequência escolar. Um ponto percentual a mais na proporção de jovens que frequentam a escola está associado a uma redução estimada de 3,9% nas horas que eles trabalham (Gethin; Saez, 2026, p. 24). Entre os idosos, a cobertura previdenciária e o gasto público com pensões ocupam posição equivalente.
A distinção entre comparar países e acompanhar cada país ao longo do tempo importa aqui mais do que em qualquer outra parte do estudo. Nas séries históricas, a queda das horas juvenis é ainda mais acentuada do que na comparação transversal. As horas dos idosos, ao contrário, permanecem estáveis nas últimas décadas, em vez de cair. Os autores registram que o desenvolvimento previdenciário não é consequência inevitável do crescimento econômico (Gethin; Saez, 2026, p. 28-29) e concluem que a estrutura das horas trabalhadas pode seguir trajetórias distintas ao longo do processo de desenvolvimento, sem estar determinada pelo PIB por adulto. Nenhum país repete necessariamente o percurso de quem se industrializou antes.
O caso mais interessante está nos adultos em idade principal. A estabilidade das horas nessa faixa resulta de dois movimentos opostos de magnitude parecida. As horas dos homens caem pela margem intensiva, pela redução da jornada de quem já está empregado. As horas das mulheres sobem pela margem extensiva, pela entrada de mais mulheres no emprego remunerado. No resumo dos próprios autores, as horas dos adultos de 20 a 59 anos permanecem “stable with development but undergo a great gender reshuffling” (Gethin; Saez, 2026, p. 1), estáveis com o desenvolvimento, ainda que atravessadas por um grande rearranjo de gênero. O padrão aparece na comparação entre países e nas séries temporais, e descreve recomposição agregada, sem implicar substituição individual entre um homem e uma mulher.
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Publicado em 01/09/2026
ABET Associação Brasileira de Estudos do Trabalho