Por: Anelise Manganelli, Raul Luís Assumpção Bastos e Virginia Rolla Donoso
NAPE, publicado em DMT em Debate
Carta de Conjuntura do NAPE, v. 33, n. 2, maio-ago./2026
Como foi mostrado no capítulo 7 da edição de abril de 2026 da Carta de Conjuntura do NAPE, a tendência nele identificada dos principais indicadores do mercado de trabalho do país pode ser reconhecida como de continuidade do processo de melhora. Assim, conforme os dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), no trimestre nov./2025-jan./2026, foi mostrado que o nível de ocupação e o rendimento médio mensal real habitual dos ocupados registraram, na referência comparativa interanual, variações positivas, enquanto a taxa de desocupação evidenciou queda.
O capítulo 7 desta edição da Carta tem o propósito de apresentar evidências mais recentes do desempenho do mercado de trabalho do país, para tanto utilizando dados do trimestre fev.-abr./2026 da PNAD Contínua[1] e de negociações salariais do Ministério do Trabalho e Emprego.
Quanto à oferta de força de trabalho, em termos retrospectivos, a taxa de participação na força de trabalho (TPFT) situou-se no menor nível de toda a sua série temporal no trimestre maio-jul./2020, 56,5%, em um dos piores momentos da pandemia de COVID-19 para o mercado de trabalho (Gráfico 7.1). Com o posterior processo de recuperação econômica do país, a indicador chegou a atingir 62,6% no trimestre maio-jul./2022, mas desde então não superou esse patamar. No trimestre fev.-abr./2026, a TPFT foi de 62,0%, o representou uma situação de estabilidade na margem e uma queda de 0,3 p.p. em comparação ao mesmo trimestre do ano anterior. O atual nível do indicador encontra-se abaixo ao do mesmo trimestre de 2019 (63,4%), uma referência comparativa anterior à pandemia de COVID-19.
O tamanho absoluto da força de trabalho do país atingiu o pico de toda a sua série temporal no trimestre set.-nov./2025, 108.662 mil pessoas, e, após, se manteve estável. No trimestre fev.-abr./2026, a força de trabalho foi de 108.655 mil pessoas, configurando uma situação de estabilidade tanto na margem quanto na referência comparativa interanual, uma vez que a sua oscilação não tem significância estatística.
Gráfico 7.1 – Força de trabalho, em mil pessoas, e taxa de participação na força de trabalho, em % – 2019/2026

Fonte de dados brutos: IBGE, PNAD Contínua. Elaboração dos autores.
Nota: TPFT – Taxa de participação na força de trabalho.
O nível de ocupação no mercado de trabalho do país atingiu o pico de sua série temporal no trimestre set.-nov./2025, quando se situou em 59,0% (Gráfico 7.2). Esse patamar do indicador era 3,6 p.p. superior ao do mesmo trimestre de 2019, uma referência que antecede aos impactos da pandemia de COVID-19 sobre o mercado de trabalho. No trimestre fev.-abr./2026, o nível de ocupação foi de 58,4%, com uma variação negativa de 0,3 p.p. em comparação ao trimestre nov./2025-jan./2026, enquanto na referência comparativa interanual, o indicador se manteve estável.
No que se refere ao contingente de ocupados, este também se situou no nível máximo de sua série temporal no trimestre set.-nov./2025, 103.019 mil pessoas (Gráfico 7.2). De acordo com os dados mais recentes, no trimestre fev.-abr./2026, o número absoluto de ocupados foi de 102.333 mil pessoas, o que representou uma retração de 0,3% na margem, e, na comparação interanual, o indicador registrou uma variação positiva de 1,1%. Esse ritmo de crescimento interanual do contingente de ocupados é inferior ao do trimestre fev.-abr./2024, 2,8%, e ao do trimestre fev.-abr./2025, 2,4%. De outra parte, atualizando-se a evidência que havia sido destacada no capítulo 7 da edição anterior da Carta de Conjuntura do NAPE, no trimestre fev.-abr./2026 ocorreu a sexagésima variação interanual positiva do contingente de ocupados da série temporal de trimestres móveis da PNAD Contínua.
Gráfico 7.2 – Número de ocupados, em mil pessoas, e nível de ocupação, em % – 2019/2026

Fonte de dados brutos: IBGE, PNAD Contínua. Elaboração dos autores.
No que diz respeito à estrutura ocupacional, a taxa de informalidade vem passando por um processo de queda no país desde 2022 (Gráfico 7.3). No trimestre fev.-abr./2026, a taxa de informalidade foi de 37,2%, mantendo-se estável na margem e com uma redução de 0,8 p.p. em comparação ao mesmo trimestre de 2025. Na série temporal de trimestres móveis da PNAD Contínua, a taxa de informalidade só se situou em um patamar inferior no trimestre abr.-jun./2020, 36,6%. Todavia, naquele contexto, o indicador havia se retraído muito devido aos efeitos adversos da pandemia de COVID-19 sobre o mercado de trabalho, os quais atingiram mais negativamente os trabalhadores informais. De maneira distinta, na presente conjuntura, o processo de queda da taxa de informalidade se deve à capacidade de geração de trabalho formal pela economia brasileira.
O contingente de ocupados informais do país foi de 38.118 mil pessoas no trimestre fev.-abr./2026 (Gráfico 7.3). Tal número absoluto correspondeu a uma redução, frente ao trimestre nov./2025-jan./2026, de 1,1% ou menos 407 ocupados informais, enquanto na referência comparativa interanual, se verificou estabilidade do indicador.
Gráfico 7.3 – Número de ocupados informais, em mil pessoas, e taxa de informalidade, em % – 2019/2026

Fonte de dados brutos: IBGE, PNAD Contínua. Elaboração dos autores.
As variações da força de trabalho, dos ocupados e dos desocupados no trimestre móvel encerrado em abril de 2026 encontram-se no Gráfico 7.4. Na comparação com o trimestre imediatamente anterior a força de trabalho ficou estável – a sua oscilação não tem significância estatística –, o contingente de ocupados se reduziu em 338 mil pessoas e o de desocupados aumentou em 471 mil pessoas. Já na comparação interanual os resultados são positivos para a ocupação, com aumento de 1.073 mil pessoas em seu contingente, o qual, como decorrência, causou uma queda no número de desocupados de 809 mil pessoas.
Gráfico 7.4 – Variação dos principais contingentes do mercado de trabalho, em 1.000 pessoas – 2025/2026

Fonte de dados brutos: IBGE, PNAD Contínua. Elaboração dos autores.
Observando-se as séries temporais da desocupação (taxa e contingente) ao longo do período de referência apresentado no Gráfico 7.5, constata-se uma queda em ambas desde meados de 2021. No trimestre fev.-abr./2026 em relação ao trimestre imediatamente anterior, houve aumento da taxa de desocupação de 5,4% para 5,8% e de 8,0% no contingente de desocupados. Na comparação interanual a taxa de desocupação e o contingente de desocupados registraram redução: a taxa passou de 6,6% para 5,8%, o que, em números absolutos, representou uma queda de 7.130 mil para 6.322 mil desocupados.
Gráfico 7.5 – Número de desocupados, em mil pessoas, e taxa de desocupação, em % – 2019/2026

Fonte de dados brutos: IBGE, PNAD Contínua. Elaboração dos autores.
O rendimento médio mensal real habitual dos ocupados no trabalho principal apresentou comportamento volátil ao longo do período 2019-2026, refletindo as sucessivas mudanças no cenário econômico e no mercado de trabalho (Gráfico 7.6). Em 2019 manteve-se relativamente estável, seguido por uma alta expressiva até meados de 2020 – fenômeno explicado na edição anterior da Carta. A partir dali, porém, configurou-se uma trajetória declinante, com o ponto mais crítico no final de 2021, quando a inflação elevada e os efeitos residuais da pandemia comprimiram os salários reais. A partir de 2022 iniciou-se uma recomposição dos rendimentos, que ganhou folego entre 2023 e 2025.
No trimestre fev.-abr./2026, o rendimento médio mensal real habitual alcançou R$ 3.615 (Gráfico 7.6). Na comparação com o mesmo trimestre de 2025, verifica-se crescimento de 5,0% do indicador. Esse desempenho evidencia não apenas a melhoria no mercado de trabalho, mas também a capacidade de diversos setores de repor perdas salariais.
Gráfico 7.6 – Rendimento médio mensal real habitualmente recebido no trabalho principal em R$ de fev.-abr./2026 – 2019/2026

Fonte de dados brutos: IBGE, PNAD Contínua. Elaboração dos autores.
Enquanto o rendimento médio reflete o ganho individual, a massa de rendimentos reais — que engloba todos os trabalhos e todos os ocupados — sintetiza o resultado da interação entre o nível de emprego e a remuneração média. Em 2019 a massa de rendimentos manteve-se estável (Gráfico 7.7); com a chegada da pandemia, contudo, sofreu forte contração ao longo de 2020 e 2021, atingindo seu menor nível em meados deste último ano. A partir desse ponto, a retomada das atividades produtivas e a expansão do contingente ocupado impulsionaram uma recuperação gradual, que se acelerou entre 2023 e 2025, levando o indicador a superar os níveis pré-crise.
No trimestre fev.-abr./2026, a massa de rendimentos mensal real habitual dos ocupados registrou um crescimento de 6,5% em relação ao mesmo período de 2025 (Gráfico 7.7). Esse resultado é ainda mais expressivo do que a alta do rendimento médio (5,0%), o que revela que o aumento da massa decorre tanto da melhora dos salários quanto do incremento do número de pessoas ocupadas. Em outras palavras, a ampliação da base de trabalhadores – associada a um mercado de trabalho aquecido e com baixas taxas de desemprego – tem sido o motor principal do fortalecimento da renda total da população ocupada.
Gráfico 7.7 – Massa de rendimentos mensal real habitualmente recebidos em todos os trabalhos, em R$ milhões de fev.-abr./2026 – 2019/2026

Fonte de dados brutos: IBGE, PNAD Contínua. Elaboração dos autores.
Os dados extraídos do Sistema Mediador do Ministério do Trabalho e Emprego relativos ao período de janeiro a abril de 2026 revelam um cenário favorável aos trabalhadores, especialmente quando comparado a períodos anteriores (Gráfico 7.8). Nesse intervalo, 89,7% dos acordos e convenções coletivas de trabalho resultaram em reajustes acima da inflação aferida pelo INPC/IBGE para a respectiva data-base. Em posição intermediária, 7,5% das negociações limitaram-se a repor exatamente a perda inflacionária do período, enquanto apenas 2,8% dos instrumentos coletivos registraram ganhos nominais inferiores à variação dos preços — configurando, portanto, perda real de salário.
Quando confrontados com os números do mesmo quadrimestre de 2025, os indicadores mostram melhora expressiva em todas as faixas. Reduziu-se tanto a proporção de trabalhadores que não conseguiram recuperar o poder de compra quanto a daqueles que ficaram apenas com a reposição da inflação; o saldo desse movimento foi um deslocamento em direção à faixa de ganhos reais. Trata-se de um resultado coerente com um mercado de trabalho aquecido, no qual a demanda por mão de obra pressiona a empregadores e tomadores de serviço a oferecerem condições mais atrativas para reter e contratar trabalhadores.
Gráfico 7.8 – Distribuição dos reajustes salariais negociados, em comparação com o INPC-IBGE, segundo data-base, em % – jan.-abr./2025 e jan.-abr./2026

Fonte dos dados brutos: Sistema Mediador, Ministério do Trabalho e Emprego. Nota: Posição dos registros em junho de 2026. Elaboração: DIEESE.
Esse desempenho coletivo não pode ser dissociado da política de valorização do salário-mínimo, que, nos últimos anos, tem assegurado aumentos reais – ou ou seja, correções acima da inflação. O reajuste anual, que deve considerar a variação da inflação e o crescimento real do PIB, foi calculado em 2026 tomando por base o INPC acumulado entre dezembro de 2024 e novembro de 2025, de 4,18%, e o crescimento real do PIB de 2024, de 3,4%. Contudo, nos termos do artigo 5º da Lei Complementar nº 200/2023, que institui o novo regime fiscal, o crescimento real das despesas primárias da União está limitado ao teto de 2,5% ao ano. Dessa forma, o aumento real do salário-mínimo ficou em 2,5%, resultando em um reajuste total de 6,79%.
Ao servir como piso referencial para toda a estrutura de remunerações, o salário mínimo mais elevado acaba por “puxar” para cima os demais níveis salariais, especialmente nas categorias que historicamente utilizam esse indicador como balizador nas mesas de negociação para a definição dos pisos setoriais. Em um ambiente de desemprego baixo e competição por mão de obra, o efeito de arrasto do salário mínimo sobre a escala geral de vencimentos se potencializa, criando as condições objetivas para que as cláusulas econômicas dos acordos e convenções resultem, majoritariamente, em ganhos reais. Dessa forma, o avanço observado nas negociações coletivas não apenas reflete o dinamismo do emprego, mas também corrobora e amplifica a trajetória de recuperação dos rendimentos médios apurada pela PNAD Contínua, consolidando a recomposição salarial como um dos traços distintivos da conjuntura atual.
[1] Os indicadores da PNAD Contínua para o país são médias móveis trimestrais. Por motivo de economia textual, tratamos de também identificá-los pelo último mês do trimestre de referência. Os dados mais recentes disponíveis no momento de redação desta edição da Carta de Conjuntura eram os do trimestre fev.-abr./2026.
Anelise Manganelli é mestre em economia pela Pontíficia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS) e Técnica do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (DIEESE).
Raul Luís Assumpção Bastos é doutor em Ciências Econômicas pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e economista do Departamento de Economia e Estatística da Secretaria de Planejamento Governança e Gestão do Governo do Estado do Rio Grande do Sul.
Virginia Rolla Donoso é mestre em Economia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).
Data de publicação 08/10/26
ABET Associação Brasileira de Estudos do Trabalho