Por Clemente Ganz Lúcio | DMT em Debate
O mercado de trabalho brasileiro continua produzindo resultados muito positivos
O mercado de trabalho brasileiro continua produzindo resultados muito positivos, como indicou a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua), do IBGE: a taxa de desocupação caiu para 5,3% no trimestre encerrado em julho de 2026 e o rendimento médio real do trabalho também avançou para R$ 3.777,00.
São resultados que, mais uma vez, confirmam uma mudança importante na dinâmica econômica e social do país.
Esses números ganham ainda mais significado quando observados em conjunto com a expansão do emprego formal. Os dados da RAIS Mensal divulgados pelo Ministério do Trabalho e Emprego mostram que o estoque de vínculos formais chegou a 62,9 milhões em junho de 2026. Desde janeiro de 2023 foram acrescidos 10,1 milhões de vínculos, crescimento de 19,1%. Somente nos primeiros seis meses deste ano, o aumento foi de 2,46 milhões de postos de trabalho.
O Brasil voltou a demonstrar que crescimento econômico, geração de empregos, formalização e aumento da renda do trabalho podem caminhar juntos.
Mais do que bons indicadores conjunturais, esses resultados demonstram que políticas econômicas, produtivas, sociais e de valorização do trabalho, quando articuladas, podem produzir simultaneamente crescimento, emprego, formalização e aumento da renda.
Um bom ponto de partida
O desafio agora é transformar esses resultados positivos em uma trajetória longa de desenvolvimento. Isso exige enfrentar problemas estruturais que permanecem no mercado de trabalho brasileiro e, simultaneamente, fortalecer a estratégia de desenvolvimento produtivo capaz de sustentar crescimento, produtividade, agregação de valor, bons empregos e aumento continuado da renda do trabalho.
O primeiro cuidado é não confundir uma taxa baixa de desemprego com a solução dos problemas do mundo do trabalho. Apesar dos inúmeros avanços, permanecem a informalidade e a subutilização da força de trabalho. Há milhões de trabalhadores por conta própria em atividades de baixa produtividade, pessoas subocupadas por insuficiência de horas trabalhadas e outras que poderiam ingressar na força de trabalho caso existissem oportunidades e condições adequadas.
A rotatividade continua sendo outra característica estrutural do mercado de trabalho brasileiro. Parte da movimentação entre admissões e desligamentos é normal em uma economia dinâmica, mas a elevada rotatividade também significa vínculos de curta duração, instabilidade da renda, perda de experiência acumulada e maior dificuldade para que empresas e trabalhadores construam relações duradouras de investimento em qualificação e produtividade.
Informalidade, elevada rotatividade e subutilização expressam, por caminhos diferentes, um mesmo desafio: ainda utilizamos de maneira insuficiente e precária uma parcela importante da capacidade de trabalho existente no país.
Um bom posto de trabalho combina remuneração adequada, direitos, proteção previdenciária, saúde e segurança, jornada compatível com a vida, igualdade de oportunidades, formação profissional permanente, proteção sindical e capacidade efetiva de representação e negociação coletiva.
Enfim, a qualidade dos empregos depende, em grande medida, da qualidade da estrutura produtiva que somos capazes de construir. Não é possível sustentar salários elevados em uma economia permanentemente assentada em baixo investimento, pouca inovação, baixa produtividade e atividades de reduzido valor agregado. Da mesma maneira, não constitui estratégia sustentável elevar produtividade comprimindo salários, precarizando contratos ou intensificando indefinidamente o trabalho.
O desafio brasileiro é aprofundar e expandir a atual trajetória, na qual investimento, inovação e formação profissional elevam a produtividade e fortalecem a competitividade das empresas e os ganhos, enquanto os ganhos desse processo criam condições para elevar salários, reduzir jornadas, financiar novos investimentos e melhorar a qualidade do trabalho.
Produzir e agregar mais valor
Isso coloca a política de desenvolvimento produtivo no centro do debate sobre o futuro do trabalho. O Brasil possui enorme capacidade produtiva, mercado interno de dimensão continental, recursos naturais, matriz energética relativamente limpa, agricultura altamente produtiva, base industrial diversificada, universidades, instituições de ciência e tecnologia e um conjunto importante de empresas capazes de competir internacionalmente.
Precisamos aprimorar essas capacidades articulando-as em torno da estratégia de desenvolvimento industrial e produtivo organizada pela Nova Indústria Brasil – NIB e pelas demais políticas setoriais. Isso significa atuar para elevar a taxa de investimento, ampliar infraestrutura, incorporar tecnologia, aumentar produtividade, desenvolver conhecimento, fortalecer empresas nacionais, atrair investimentos comprometidos com o desenvolvimento produtivo do país, agregar valor aos recursos que possuímos e ampliar nossa capacidade de exportar produtos manufaturados e serviços de maior conteúdo tecnológico.
Não se trata de contrapor agricultura, indústria e serviços. Ao contrário. Trata-se de construir relações produtivas cada vez mais sofisticadas entre esses setores. Nossa extraordinária produção agrícola deve estimular máquinas, equipamentos, fertilizantes, biotecnologia, agricultura digital, pesquisa, logística e processamento de alimentos. Nossas riquezas minerais devem alimentar cadeias industriais e tecnológicas de alta capacidade de agregar valor. Nossa capacidade de produzir energia renovável deve impulsionar novas indústrias e tecnologias associadas à transição energética. Nossa biodiversidade deve sustentar pesquisa, bioeconomia, novos materiais, medicamentos e produtos de maior valor agregado. O desenvolvimento deve ser medido não apenas pelo volume que produzimos e exportamos, mas também por quanto conhecimento, tecnologia, trabalho qualificado e valor adicionamos àquilo que produzimos.
Nesse sentido, a Nova Indústria Brasil constitui uma excelente base para organizar uma política de desenvolvimento produtivo. Suas seis missões articulam cadeias agroindustriais, complexo econômico-industrial da saúde, infraestrutura e cidades, transformação digital, bioeconomia e transição energética e tecnologias relacionadas à soberania nacional. A NIB oferece uma arquitetura estratégica fundamental, mas não esgota a política de desenvolvimento produtivo. Ela deve ser fortalecida, aprofundada e permanentemente atualizada e funcionar como base articuladora de um conjunto mais amplo de políticas setoriais capazes de mobilizar investimentos, inovação, produtividade e empregos de qualidade.
Existem inúmeras cadeias que podem ser adensadas no país. O complexo da saúde, por exemplo, abre enorme espaço para fármacos, medicamentos, vacinas, equipamentos, biotecnologia, pesquisa e serviços especializados. O turismo mobiliza transportes, hotelaria, alimentação, infraestrutura, tecnologia, cultura e uma enorme diversidade de serviços. A cultura articula produção audiovisual, música, literatura, patrimônio, museus, espetáculos, design, comunicação, tecnologia e economia criativa. O mesmo raciocínio vale para a economia do cuidado, a construção civil, a tecnologia da informação, os serviços tecnológicos avançados, a produção de alimentos, a bioeconomia e os inúmeras atividades relacionadas às transições energética, ambiental e digital.
Uma política nacional de desenvolvimento produtivo não pode ser confundida com uma política exclusivamente industrial. Ela deve articular indústria, agricultura e serviços para elevar produtividade, conhecimento e valor agregado em toda a economia. O objetivo é construir uma economia mais complexa, diversificada e tecnologicamente avançada, capaz de competir internacionalmente e, simultaneamente, gerar milhões de empregos de qualidade.
Trabalho e renda como motores do desenvolvimento
Há outro componente decisivo nessa estratégia. O trabalho não é apenas resultado do desenvolvimento. É também uma força que impulsiona o desenvolvimento.
Mais emprego gera mais renda. Mais renda sustenta o consumo das famílias. O consumo amplia o mercado das empresas. A expansão do mercado estimula produção e investimento. Novos investimentos geram empregos e renda.
Produziu-se nos últimos anos essa dinâmica virtuosa. A recuperação do emprego, a valorização do salário mínimo, as transferências de renda, o crédito, o investimento público e privado e as políticas produtivas contribuíram para sustentar o mercado interno e estimular a atividade econômica. Esse movimento precisa ganhar maior escala e permanência.
Uma estratégia de desenvolvimento deve assumir explicitamente o objetivo de elevar a renda do trabalho. Isso significa gerar mais empregos e, principalmente, empregos mais produtivos e mais bem remunerados. Significa também fortalecer políticas de proteção da renda, como a valorização do salário mínimo, a Previdência Social, o seguro-desemprego, proteção trabalhista, transferências sociais e demais mecanismos capazes de oferecer segurança econômica às famílias.
Forma-se assim outro circuito virtuoso: produtividade crescente permite melhores salários; salários maiores fortalecem o mercado interno; mercado interno forte estimula investimentos; investimentos ampliam capacidade produtiva; e maior capacidade produtiva sustenta novo crescimento da produtividade e da renda. A questão distributiva, portanto, não aparece depois do crescimento, mas integra a própria estratégia de crescimento.
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Publicado em 21/10/2026.
Fonte: Blog do Clemente
ABET Associação Brasileira de Estudos do Trabalho