Crédito: Bruno Peres/Agência Brasil

Artigo | O que os trabalhadores pensam sobre desenvolvimento

Por Clemente Ganz Lúcio – Diretor técnico do DIEESE | Brasil 247


Centralidade subjetiva do trabalho e os desafios de uma estratégia nacional de desenvolvimento


Comecemos por um dado desconcertante. No Brasil de hoje — onde aproximadamente 40% da força de trabalho vive na informalidade, onde a rotatividade corrói trajetórias profissionais, onde a pejotização fraudulenta e o trabalho por plataformas avançam sem regulação adequada, 84% da população em idade de trabalhar declara encontrar no trabalho sentido e propósito para a vida. Não é uma minoria de privilegiados com empregos estáveis e bem remunerados: é uma percepção transversal, que atravessa vínculos, setores e regiões.

Esse dado provém da pesquisa realizada pela Vox Populi para as Centrais Sindicais em 2025, com a população brasileira em idade de trabalhar. Ela revela que, para 91% dos entrevistados, o trabalho é importante porque oferece oportunidade de aprender e adquirir experiência; para 88%, porque permite sentir-se útil e valorizado; para 86%, porque possibilita interação com outras pessoas e construção de redes de relacionamento; e para 84%, porque confere sentido e propósito à vida. Esses resultados são consistentes entre todas as categorias de trabalhadores pesquisadas — assalariados com e sem carteira, trabalhadores do setor público, autônomos, profissionais liberais, empreendedores, trabalhadores de plataformas e domésticas.

A contradição é fértil. Num país que historicamente trata o trabalho como variável de ajuste — custo a ser reduzido, resultado a ser esperado do crescimento, problema a ser gerido —, os próprios trabalhadores o vivem como fonte de identidade, aprendizado, pertencimento e significado. Essa distância entre a experiência dos trabalhadores e a concepção que orienta boa parte da política econômica brasileira não é um aspecto menor: é constitutivo da história econômica de décadas de estratégias de desenvolvimento que promoveu o crescimento sem distribuir, a modernização sem incluir e a flexibilidade sem proteger.

Este artigo parte dessa contradição para argumentar uma tese: considerar e levar a sério o que os trabalhadores dizem sobre o trabalho é condição para construir uma estratégia de desenvolvimento que seja ao mesmo tempo economicamente eficaz, socialmente justa e politicamente sustentável. A centralidade subjetiva do trabalho, reconhecida pela classe trabalhadora, precisa ser convertida em centralidade estratégica nas escolhas de desenvolvimento do Brasil.

O mapa do que cada categoria revela

A pesquisa da Vox Populi para as Centrais Sindicais revela um mapa. Quando os dados são desagregados por categoria profissional, emerge o desenho da desigualdade de acesso às dimensões mais ricas do trabalho, no qual são diagnosticadas as condições concretas em que cada grupo exerce sua atividade e os obstáculos que uma estratégia de desenvolvimento precisa superar.

O assalariado: entre a valorização e o peso

Os trabalhadores de empresa privada, com ou sem carteira assinada, representam cerca de 51% da população economicamente ativa e são, numericamente, o grupo mais expressivo do mercado de trabalho brasileiro. Seus índices nas quatro dimensões positivas são elevados e próximos à média geral: 92% valorizam o aprendizado proporcionado pelo trabalho, 89% sentem-se úteis e valorizados, 87% destacam a interação e a construção de redes, e 83% encontram no trabalho sentido e propósito para a vida.

Esses dados revelam algo importante: o trabalhador assalariado reconhece e valoriza as dimensões ricas do trabalho tanto quanto e em alguns casos mais do que categorias com maior autonomia. O vínculo empregatício, longe de sufocar o engajamento, parece sustentá-lo. No entanto, a pesquisa também revela o outro lado dessa moeda: o assalariado privado apresenta os maiores índices nas dimensões negativas entre todas as categorias com vínculos estáveis. São 61% os que concordam que o trabalho consome e não deixando espaço para a família ou o lazer, este o índice mais alto do grupo. E 58% sentem-se pressionados e estressados pelo trabalho, também acima da média, registram a precarização, vulnerabilidade e insegurança como no caso do assalariamento sem o registro em carteira.

Os motivos da insatisfação confirmam esse retrato. Entre os que se declaram insatisfeitos com seu emprego, 55% apontam os baixos salários como causa principal e 26% reclamam de jornadas excessivas. O assalariado, portanto, não é indiferente ao trabalho, ao contrário, engaja-se com ele e nele encontra sentido. Mas carrega o peso de condições que contradizem esse engajamento: remuneração insuficiente, jornadas que consomem a vida fora do trabalho, pressão que gera ansiedade e estresse, precarização e vulnerabilidade.

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Publicado em 20/07/2026

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