Da CLT ao aplicativo: pesquisa inédita aponta as prioridades do eleitor diante das mudanças no trabalho

Por Roberto Malfacini Jr., Mayra Castro e Kaio Magalhães | O Globo


Brasileiros desejam mais estabilidade e autonomia quando pensam em melhores condições


A liberdade para organizar os próprios horários permite que Leandro Alves acompanhe os dois filhos, que necessitam de cuidados especiais, em consultas médicas sem pedir autorização a um superior. Morador de Planaltina, a cerca de 50 minutos do centro de Brasília, o entregador sai de casa às 11h para rodar na Asa Norte e costuma retornar às 22h. Após anos trabalhando com carteira assinada, o brasiliense de 47 anos passou a fazer entregas por aplicativos em 2021, em busca de flexibilidade e ganhos maiores. Cinco anos e uma pandemia depois, porém, ele percebe uma queda na renda e um aumento nas horas trabalhadas. Embora ainda valorize a autonomia, sente falta de estabilidade.

— Até 2022, eu conseguia ter uma renda que ajudava minha mãe e meus filhos. Sobravam em torno de R$ 4,5 mil. Hoje, trabalho 11 horas por dia e não consigo manter os custos de vida — afirma.

A experiência de Alves traduz uma demanda que deve ganhar espaço na eleição presidencial: em meio a transformações nas relações de trabalho no pós-pandemia, os brasileiros desejam, em proporção semelhante, mais estabilidade e mais autonomia quando pensam em melhores condições de trabalho hoje, mostra pesquisa Ideia realizada neste mês com 1.500 entrevistas em todo o país.

Os dados, obtidos pelo GLOBO com exclusividade, mostram que ter estabilidade no emprego é citado por 21,3% dos brasileiros, fator seguido por ter autonomia e trabalhar em seu próprio negócio e por ter liberdade para definir os próprios horários, com 16,2% e 13,1%, respectivamente. A margem de erro do levantamento é de 2,5 pontos percentuais para mais ou menos.

Qualidade de vida

O panorama em que estabilidade e autonomia surgem simultaneamente como condições de trabalho mais desejáveis aponta um desafio para candidatos à Presidência que querem conversar com esse eleitor e terão que se debruçar em temas que vão da regulamentação de trabalhadores de aplicativos e fim da escala 6×1 a medidas para a geração de emprego. CEO do Ideia, Cila Schulman, destaca que os trabalhadores não querem escolher mais entre direitos e autonomia.

— Entre estabilidade e liberdade, o trabalhador quer ambas. Estamos falando de qualidade de vida, não só de trabalho. As pessoas estão exaustas, inseguras e ansiosas por não saberem se terão emprego amanhã — analisa.

Quando questionados sobre qual condição de trabalho considera a mais importante, os temas voltam a ter destaque: os entrevistados se dividem entre estabilidade (27,7%), plano de saúde (24,1%), flexibilidade de horários (19,7%), férias e descanso remunerados (18,2%), possibilidade de ser o próprio chefe (16,3%) e trabalho remoto ou híbrido (15,1%).

O levantamento aponta um quadro semelhante mesmo se considerados os diferentes perfis de trabalhadores, sejam assalariados no regime CLT, servidores públicos ou trabalhadores que não pertencem a nenhum desses grupos, como autônomos, trabalhadores por aplicativo e contratados como PJ (pessoa jurídica).

Segundo a pesquisa, a estabilidade, por exemplo, é citada por 29,9% dos servidores públicos, 23,4% dos assalariados e 20,1% dos trabalhadores que não se enquadram nessas duas categorias e têm vínculos mais flexíveis — nesse último segmento, ela aparece pouco atrás de ter autonomia e trabalhar em seu próprio negócio (24,8%). Entre quem tem CLT, a liberdade para definir horários aparece no mesmo patamar que ter benefícios, como plano de saúde (16,2% cada).

A analista financeira Gabriela Frazão, de 26 anos, associa a carteira assinada à segurança, mas valoriza autonomia. Moradora de São João de Meriti, na Baixada Fluminense, ela leva cerca de duas horas para chegar ao trabalho, em Botafogo, na Zona Sul do Rio, e defende a ampliação dos modelos híbrido e remoto.

— Quem frequenta metrô, trem ou ônibus sabe que, às vezes, demora de duas a três horas para ir e voltar do trabalho. Isso sem contar as intercorrências do dia, como confrontos entre facções ou as chuvas, e tudo isso afeta a nossa rotina — afirma Gabriela, que já trabalhou na escala 6×1 e procura candidatos que defendam o fim desse regime.

Já o secretário de uma escola pública na Zona Sul de São Paulo, Michel Dromed, de 46 anos, diz esperar que os presidenciáveis valorizem os salários dos servidores e ampliem os concursos para reduzir a sobrecarga. Após trabalhar no comércio, Dromed escolheu o serviço público justamente pela estabilidade que ele oferece.

— Férias são fundamentais, porque a gente precisa descansar a cabeça. O descanso remunerado é o mínimo. A gente precisa descansar e usufruir do nosso trabalho — afirma.

Na avaliação do cientista político Josué Medeiros, coordenador do Observatório Político e Eleitoral (Opel) da UFRJ, as diferenças entre os candidatos a presidente no tema mercado de trabalho tendem a permear a campanha. Enquanto as candidaturas de direita são mais ligadas à liberdade econômica e à menor interferência do Estado nas relações de trabalho, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), mais à esquerda, deve tentar ocupar o campo da proteção social — o fim da escala 6×1 é uma das apostas do petista. Seu principal rival, Flávio Bolsonaro (PL), aposta em contratos e horários mais flexíveis. Para trabalhadores de plataformas, promete conciliar autonomia e proteção social.

A pesquisa sugere, contudo, que os eleitores não se encaixam de forma tão rígida nessa divisão. Os resultados, diz Medeiros, refletem uma mudança provocada pela pandemia: a crise sanitária expôs a fragilidade de quem não tinha vínculo formal nem acesso a direitos.

— Isso mudou o cenário e gerou uma onda pró-direitos, pró-vínculo e pró-estabilidade — conclui.

Nesse cenário, os números mostram que a busca por segurança atravessa os campos políticos, embora a direita dê mais peso à autonomia e à liberdade de horário. A estabilidade é valorizada por 19% dos eleitores da direita bolsonarista e pelo mesmo percentual na direita não bolsonarista, pouco abaixo dos 25% de lulistas e dos 27% da esquerda não lulista, mostra o levantamento do Ideia.

Fora da polarização
Medeiros avalia que a pauta pode “furar a polarização”, pois os interesses econômicos podem pesar mais do que a identificação ideológica:

— A questão do trabalho vai ser muito importante porque tem potencial de virar voto. Esse eleitor pode não seguir a ideologia, mas os próprios interesses. Numa eleição apertada, se 1% ou 2% mudarem, isso já pode alterar o resultado.

Cila Schulman, do Ideia, destaca que a força eleitoral do debate sobre o fim da escala 6×1 não decorre apenas de uma reivindicação trabalhista tradicional, mas de uma demanda mais ampla por descanso e qualidade de vida.

— O fim da jornada 6×1 virou uma pauta eleitoral importante, mas trouxe à tona uma demanda por descanso, por fazer outras coisas e por ter qualidade de vida novamente. O trabalhador quer o sonho completo, não quer optar apenas pela estabilidade ou pela liberdade — avalia.


Clique para ler a matéria completa!


Publicado em 30/08/2026.

Check Also

Prêmio ABET 2025 | “Escravidão moderna: raça e classe no capitalismo de plataformas”, de Vanessa Monteiro

Em 2020, em meio à pandemia da Covid-19, o mundo parou diante de uma das …