O problema brasileiro não é falta de trabalho. É a qualidade da inserção e o modo como os ganhos econômicos são repartidos” Entrevista especial com Erik Chiconelli Gomes

Por Patricia Fachin | IHU


Não é de hoje que especialistas de diversas áreas tentam entender e explicar o mal-estar social que se manifesta no país e repercute no processo eleitoral. À luz das transformações em curso no mundo do trabalho no primeiro quarto deste século, Erik Chiconelli Gomes, doutor em História Econômica, recorre a “elementos concretos e mensuráveis” para analisar o cenário atual. Entre eles, o entrevistado destaca a instabilidade no mercado de trabalho, o endividamento das famílias e o tempo dos trabalhadores para a realização de outras atividades.

O primeiro elemento, sublinha, é explicado pelo seguinte cenário: “uma taxa de desocupação de 5,4% convive com 37,4% de informalidade e com rendimentos que oscilam mês a mês para milhões de pessoas. Ter trabalho e não ter previsibilidade é uma experiência específica, e nenhum indicador de emprego a captura”. Já o endividamento de 81,6% das famílias, esclarece, “transforma qualquer interrupção de renda em crise imediata”. Por fim, menciona, “quem trabalha seis dias por semana precisa encaixar cuidado, estudo, saúde e convivência no resíduo do que sobra”.

Essas variáveis têm implicações diretas no modo como cada brasileiro se posiciona em meio à polarização política. Na disputa atual sobre redução da jornada de trabalho e o fim da escala 6×1, observa o entrevistado, as pesquisas sugerem que “o que se deseja é tempo sem perda de renda, não tempo no lugar da renda. É um desejo de ampliação, não de troca. Isso ajuda a entender por que a linguagem da autonomia ganha força mesmo entre quem vive grande insegurança. Não porque a insegurança seja preferida, mas porque a subordinação, tal como experimentada em boa parte dos postos de baixa remuneração, com horário fixo, supervisão estreita, salário próximo ao piso e pouca perspectiva, deixou de oferecer em troca aquilo que justificava aceitá-la: previsibilidade e ascensão”.

Nesse contexto, acrescenta Gomes, “quando o vínculo formal deixa de entregar estabilidade, ‘ser o próprio patrão’ funciona menos como adesão ideológica e mais como comparação entre duas formas de insegurança, uma das quais ao menos promete controle sobre o próprio dia. Há também uma dimensão de reconhecimento que costuma ser subestimada: existe diferença de status social entre dizer-se empreendedor e dizer-se empregado de baixa remuneração”.

Na avaliação do pesquisador, esquerda e direita captam parcialmente os anseios dos trabalhadores. No entanto, adverte, “o que nenhum dos dois campos ofereceu com clareza é uma resposta para os 37,4% de trabalhadores informais e para o enorme contingente de conta própria, que não são alcançados nem pela regulação da jornada celetista nem pela promessa genérica de empreendedorismo. É nesse vazio, e não na disputa entre as duas plataformas visíveis, que se decide a próxima década”.

A fim de buscar alternativas à polarização que toma conta do debate público nas eleições deste ano, Erik Chiconelli Gomes sugere seis temas centrais para enfrentar os problemas relativos ao mundo do trabalho e desenhar o futuro. Entre eles estão a qualidade da ocupação, o estatuto do trabalho por plataformas, a fronteira da contratação por pessoa jurídica, a proteção previdenciária de quem trabalha por conta própria, a capacidade real de negociação coletiva e a distribuição dos ganhos de produtividade associados à automação e à Inteligência Artificial. “A pergunta relevante não é se as tecnologias transformarão ocupações, porque transformarão, mas quem controla esses ganhos e como eles se dividem”, assegura.

Na entrevista a seguir, concedida ao Instituto Humanitas Unisinos – IHU por e-mail, Gomes também discorre sobre a capilaridade do salário mínimo no país e seu encadeamento institucional e limites, destaca os quatro movimentos que caracterizaram o mundo do trabalho brasileiro nas primeiras décadas do século XXI e reflete sobre as disputas em torno da regulamentação do trabalho por plataforma, a redução da jornada de trabalho e o fim da escala 6×1.

Erik Chiconelli Gomes (Foto: Arquivo Pessoal)

Erik Chiconelli Gomes é graduado em Ciências Sociais, Direito e História pela Universidade de São Paulo (USP) e em Geografia pela Universidade de Brasília (UnB). É doutor e mestre em História Econômica pela USP. Atua como coordenador acadêmico e coordenador do Centro de Pesquisa da Escola Superior de Advocacia da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB)/SP. Integra os Grupos de Pesquisa Trabalho e Capital e Crítica do Direito e Subjetividade Jurídica na Faculdade de Direito da USP e o Grupo de Estudo do Observatório do Trabalho e da Classe Trabalhadora no Instituto de Estudos Avançados da USP (IEA/USP).

Confira a entrevista

IHU – Quase 70% dos brasileiros têm renda de até dois salários mínimos segundo a última Pnad Contínua, do IBGE. O que mais lhe chama atenção nesse dado?

Erik Chiconelli Gomes – Começo por um ajuste técnico que não enfraquece o dado, apenas o coloca no lugar certo. O percentual de 69,1% não foi publicado pelo IBGE. Ele vem de uma tabulação dos microdados da Pnad Contínua do segundo trimestre de 2026 feita pelo economista Bruno Imaizumi, da consultoria 4intelligence, divulgada pelo Valor Econômico em agosto. O IBGE não publica, em seus releases trimestrais, a distribuição dos ocupados por faixas de salário mínimo, de modo que o número é um processamento secundário, legítimo, mas de autoria identificável.

O universo também não é o conjunto dos brasileiros: é a população ocupada, considerado o rendimento do trabalho. A referência é o salário mínimo de R$ 1.621, e dois mínimos equivalem a R$ 3.242. Nesse recorte, 32,2% recebem até um mínimo e 36,9% ficam entre um e dois. A diferença de universo não é preciosismo: pela Pnad Contínua sobre Rendimento de Todas as Fontes de 2025, apenas 67,2% dos 212,7 milhões de residentes tinham algum tipo de rendimento. Falar de brasileiros e falar de ocupados são coisas distintas, e a segunda é a que o dado sustenta.

Feita a ressalva, o que me chama atenção é outra coisa. Essa concentração convive com um dos melhores resultados da série histórica da Pnad Contínua, iniciada em 2012. No segundo trimestre de 2026, a taxa de desocupação foi de 5,4%, a menor já registrada para um segundo trimestre, e o rendimento médio real habitual chegou a R$ 3.738. O país gerou ocupação em ritmo forte sem alterar de modo perceptível o formato da distribuição salarial. A média, aqui, atrapalha mais do que ajuda: é puxada por uma minoria e descreve mal a experiência de quem está na base.

O país gerou ocupação em ritmo forte sem alterar de modo perceptível o formato da distribuição salarial – Erik Chiconelli Gomes

IHU – O que esse dado indica e sugere acerca do mundo do trabalho e da estrutura distributiva do país?

Erik Chiconelli Gomes – Indica que o problema brasileiro não é, principalmente, falta de trabalho. É a qualidade da inserção e o modo como os ganhos econômicos são repartidos. No segundo trimestre de 2026, a taxa de informalidade estava em 37,4% da população ocupada; havia 39,4 milhões de empregados com carteira assinada e 13,6 milhões sem carteira. A isso se soma um contingente de trabalho por conta própria que cresceu junto com a formalização por CNPJ: os registros de microempreendedor individual na Receita Federal somavam 17,163 milhões em junho de 2026. Vale a cautela metodológica: esse é um estoque administrativo de registros, que não se converte, um a um, em pessoas ocupadas apuradas pela Pnad, já que as duas bases medem coisas diferentes e não devem ser sobrepostas.

A estrutura é desigual no território de modo brutal: a informalidade vai de 25,4% em Santa Catarina a 56,9% no Maranhão. E o topo da distribuição permanece rígido. Em 2025, o décimo da população com maior rendimento domiciliar per capita concentrava 40,3% da massa de rendimentos, parcela superior à dos 70% mais pobres somados, que ficaram com 32,8%. No mesmo ano, o rendimento dos 10% mais ricos cresceu 8,7%, contra 3,1% entre os 10% mais pobres, e o índice de Gini do rendimento domiciliar per capita subiu de 0,504 para 0,511, ainda abaixo dos 0,543 de 2019.

Explicar isso apenas por escolaridade ou produtividade individual não funciona. Escolaridade pesa. No segundo trimestre de 2026, a desocupação entre pessoas com ensino médio incompleto era de 9,0%, contra 3,0% entre as de nível superior completo. Mas esse fator não produz sozinho a massa de trabalhadores comprimida na base. Aí operam a estrutura produtiva, a composição setorial do emprego, a forma de contratação e, de maneira decisiva, o poder de barganha. A taxa de sindicalização, que era de 16,1% em 2012, chegou a 8,9% em 2024. Salário não é apenas preço: é o resultado observável de uma relação de forças.

No segundo trimestre de 2026, a taxa de informalidade estava em 37,4% da população ocupada; havia 39,4 milhões de empregados com carteira assinada e 13,6 milhões sem carteira – Erik Chiconelli Gomes


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Publicado em 09/09/2026.

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