Nesta sexta, no 47º aniversário da morte do operário, sua vida e legado serão lembrados num ato em SP. Um livro relata sua formação, suas ideias e a liderança que exerceu, em meio ao ascenso das lutas populares nos anos 1970. No trecho a seguir, a greve de 79 e o piquete fatídico
Por: Cecília Luedemann
O metalúrgico Santo Dias da Silva expressa a luta da classe trabalhadora pela vida sem exploração. Militante da Pastoral Operária, do Movimento de Oposição Sindical, ministro da eucaristia e coordenador de Comunidade Eclesial de Base (CEB), Santo trabalhou pela formação política de sua classe. Em 30 de outubro de 1979, ao participar de um piquete de greve em frente à fábrica Sylvania, em Santo Amaro, foi assassinado pela PM paulista.
Nesta sexta-feira (30/10), às 14 horas, o Comitê Santo Dias da Silva convida para ato em homenagem ao operário , no local onde foi assassinado: Rua Quararibeia, 200 – Santo Amaro. De lá partirá caminhada até o cemitério Campo Grande para a celebração ecumênica em seu túmulo.
Em outra homenagem, a Fundação Perseu Abramo disponibilizou o pdf do livro Santo Dias: quando o passado se transforma em história (Perseu Abramo / Expressão Popular) de Luciana Dias, Jô Azevedo e Nair Benedicto. Para ler, basta entrar neste link.
Destacamos um trecho, para que a geração de Santo Dias relembre e as novas gerações conheçam e aprendam com a história deste trabalhador guerreiro do povo brasileiro.
(C.L.)
Greve sem sindicato: o bairro apoia
Uma greve nesses moldes requeria trabalho redobrado de organização, informação e articulação, por conta da falta do sindicato. Santo Dias sabia muito bem como era: “rodar” panfletos para distribuir nas portas de fábricas, conversar com as comunidades para avisar da paralisação e acionar apoio, dialogar com companheiros mobilizados que não puderam ir às assembleias, além de relatar o que estava acontecendo de forma mais ampla possível.
No caso dessa greve em especial, com o desbaratamento das comissões e a falta de ânimo da categoria, os piquetes teriam de assumir papel fundamental. São Paulo tinha outra característica: eram 13 mil empresas metalúrgicas espalhadas pelas regiões. Os piquetes deveriam centralizar-se nas maiores, com grande concentração de operários, para que as outras “entrassem” no movimento, por mimetismo.
Tudo o que aconteceu até dia 30 de outubro de 1979 é ainda muito presente na memória do pernambucano Eutrópio Barbosa de Farias, o Chacrinha, amigo de Santo Dias que morava em Parelheiros e também era metalúrgico. Usando óculos de aro grosso no rosto bem redondo, ele lembra mesmo o apresentador de televisão, como o apelido indica. Afirma que a greve abandonava a característica de ser de “dentro para fora” da empresa, para acontecer de “de fora pra dentro”, com piquetes. Ninguém poderia prever o que aconteceria. Chacrinha foi à assembleia no Cine Piratininga com Santo e Vanda, no domingo, como ele relata:
Eu estava na assembleia, o Santo estava na assembleia e tinha um encontro no domingo, no comitê do Aurélio Peres, com o Miguel Arraes. E depois da assembleia, o Santo me chamou e falou: “Chacrinha, nessa assembleia foi determinada a greve pela categoria. Nós não temos condições de bancar essa greve. Vamos fazer porque o sindicato decidiu, mas isso aí foi para prejudicar o nosso trabalho”. Ele já tinha falado isso. “Você vai para o comitê, que eu vou para a Pirelli.” (…) Então eu fui lá. E dei o meu recado, que na assembleia foi decidida, e que não tínhamos condição, mas a gente ia partir para as cabeças, a gente ia fazer o piquete! Nessas alturas terminou o encontro, aí eu fui para casa. Para vir quatro horas da manhã para a porta da fábrica. Quando eu chego na porta da fábrica, recebi a notícia de que a polícia já tinha invadido o Arco-Íris.
Na Pirelli, uma das primeiras empresas a parar na madrugada, Santo, junto com outros metalúrgicos, fez um bom trabalho de convencimento do pessoal, segundo Ana Maria. Até mesmo os policiais encarregados de reprimir o piquete, diante da firmeza da sua argumentação, cederam e deixaram o grupo convencer o pessoal a parar. O metalúrgico Vicente Garcia, o Espanhol, estava desempregado desde que foi demitido da Villares, e conhecera Santo Dias na Interfábricas do Socorro. Também foi à assembleia do dia 28 e depois para o Clube Arco-Íris:
Eu participei diretamente no Arco-Íris, onde era a subsede do sindicato. Como eu estava desempregado, eu ficava direto lá. Os fatos que eu me lembro claramente, é do domingo, que tinha sido decretada a greve. Sábado e domingo ficamos de plantão lá no Arco-Íris, todo o pessoal da região sul, Santo, Silva [Cleodon], João, Chacrinha. No domingo, foi quando chegou o camburão, e pegou os cento e treze lá. Minha mulher, a Terezinha, chegou um pouco antes do acontecido, e insistiu para que eu fosse para casa. Quando eu voltei, estavam todos no paredão. Santo não foi pego nesse dia porque ele tinha ido fazer um piquete na Pirelli. Eu acho que foi isso. Eu escutei depois, que lá na Pirelli, foi onde ele teve o encontro com o cara que matou ele, foi algum confronto, algum desentendimento. Isso foi um comentário, não sei se foi verdade…
Como Santo previra, a polícia invadiu todas as subsedes na noite de domingo. Mais de 100 trabalhadores foram presos no Arco-Íris. A Igreja do Socorro, local habitual da reunião da Interfábricas da região sul, acabou sendo a sede do comando de greve regional.
Era ali o centro nervoso dos piquetes, que saíam para as fábricas da região. Durante toda a segunda-feira, a polícia reprimiu severamente todos os grupos que buscavam adesão de metalúrgicos à paralisação, nas portas de fábrica. Santo fazia parte do comando de greve sul ao lado de Fernando do Ó, Nelson Nakamoto e outros metalúrgicos. Santo foi para casa, no domingo. Ana havia saído para um retiro e as crianças ficaram com o irmão de Santo, Sebastião. Santo Dias Filho recorda-se dessa noite:
Luciana e eu ajudamos meu pai a lavar o carro e lixar o portão da garagem. À noite, a mãe chegou e dormimos ouvindo os comentários sobre a greve. Meu pai passava a mão nas costas, dizendo sentir uma dor. Depois, fomos descobrir que esse lugar nas costas foi onde passou o tiro…
A barra estava pesada e Santo era muito conhecido por causa da eleição sindical em 1978. Nas assembleias, existiam muitos dedos-duros que relatavam à polícia o que ocorria. Os integrantes do comando regional sul que restaram não foram para suas casas na noite de 29 de outubro. Dormiram no comitê do Aurélio e da Irma, nas casas de amigos de comunidades distantes do seu bairro, procuraram parentes, para evitar a prisão. Logo na madrugada, foram para os piquetes nas portas de fábrica, violentamente reprimidos pela polícia. Ainda assim, conseguiram algum saldo de paralisações.
O comando regional se encontrava na Capela do Socorro, para decidir os rumos da greve. Membros dos grupos de apoio e religiosos da região passavam pela Capela, para se municiar de informações e se revezar nas dezenas de tarefas necessárias à manutenção da greve: informação, transporte e alimentação da liderança, contato com os jornais, com a Arquidiocese, denúncia das prisões, atendimento àqueles que sofreram violência policial nos piquetes. A polícia rondava o local, muito próximo do eixo industrial de Jurubatuba e da avenida Guarapiranga.
Pela manhã, no dia 30 de outubro de 1979, Santo saiu com Vicente Ruiz para um piquete na Chácara Santo Antônio. Depois disso, foi para a Capela do Socorro. Às 14 horas, fora organizado um grupo para avisar os metalúrgicos da fábrica Sylvânia, no Campo Grande, sobre a assembleia prevista para aquela noite, no Sindicato. Como havia pouca gente para ir, Santo decidiu acompanhar Vicente e João Pereira dos Santos, o João “Porrada”, apesar das inúmeras recomendações para que evitasse se expor.
O que aconteceu mudou completamente os rumos daquela greve fadada ao fracasso, além de lhe dar a conotação política que até então não possuía – um grande movimento pelo direito de greve e contra a repressão e o cerceamento à organização dos trabalhadores. Vicente Garcia lembra que policiais pediram reforço na porta da fábrica e começaram o tumulto:
Quando chegamos todos na Sylvânia, tinha dois policiais, começamos a falar com o pessoal, com toda aquela tranquilidade. Aí os policiais entraram no meio, com intuito de levar alguém preso. Começou aquele empurra-empurra, tira um, pega outro, foi então que eles me pegaram para levar. Nisso, Santo encarou os caras. Até que o João perdeu a paciência e deu um soco no cara. O que eu penso sobre aquele momento? Nós tínhamos planos pacíficos, mas os policiais tentavam levar os líderes, e depois tentaram segurar a gente. No momento que a gente estava saindo, eles me deram uma rasteira, caiu minha carteira, e nesse exato momento foi quando teve um disparo. Depois disso, aí todo mundo começou a correr para cima, mas o tumulto foi tão grande que não deu para ver o que realmente aconteceu. Logo depois desse episódio, tivemos a notícia da morte de Santo.
Um dos operários assistiu tudo, depois de se esconder dos policiais atrás de uma banca de jornais, próxima à entrada da empresa. Viu quando um PM forte, alto, aloirado e com uma falha dentária na arcada inferior deu um tiro para cima. Os operários se dispersaram e correram rumo à avenida Nossa Senhora do Sabará. Mesmo assim, ele assistiu a esse mesmo PM fazer mira e acertar Santo Dias pelas costas.
Outras Palavras é feito por muitas mãos. Se você valoriza nossa produção, contribua com um PIX para outrosquinhentos@outraspalavras.net e fortaleça o jornalismo crítico.
Tags
ditadura militar, greve dos metalúrgicos, Movimento de Oposição Sindical, pastoral operária, regime militar, Santo Dias da Silva
Publicado em 03/10/26
ABET Associação Brasileira de Estudos do Trabalho