Desmontando o papo do Véio da Havan sobre “milionários que deixarão o Brasil”

Fonte: Edilson Rodrigues/Agência Senado


Postagem do bilionário ultrabolsonarista é uma das coisas mais patéticas e inacreditáveis da história da internet, para além de falsa, mas mostra a real preocupação dos magnatas



Por Henrique Rodrigues | Revista Fórum



Luciano Hang, o bilionário ultrabolsonarista que ficou conhecido em todo o Brasil por suas vestes sociais ufanistas e pela alcunha de ‘Véio da Havan’, em referência à sua rede de lojas, está de volta e agora com uma história que pode ser tranquilamente considerada uma das coisas mais patéticas e inacreditáveis da história da internet. Mas as alegações apresentadas por ele também não se sustentam, são falsas, servindo apenas para mostrar a real preocupação dos magnatas de salvarem o próprio bolso e não pagarem impostos justos, largando o peso tributário no lombo do trabalhador.


A postagem feita pelo empresário neste domingo (6) traz dados de uma suposta pesquisa realizada pela consultoria britânica de migração de investimentos Henley & Partners, que teria colocado os milionários brasileiros na 6ª colocação mundial entre os ricaços “que mais precisam migrar de país” para se livrar do que eles consideram “impostos abusivos”. Os fujões seriam aproximadamente 1.200 em 2025 e a ladainha surge na esteira do embate entre o governo Lula (PT) e o Congresso Nacional por conta do projeto de aumento da faixa de isenção de Imposto de Renda para pessoas que ganham até R$ 5 mil mensais, que em termos de arrecadação seria compensada por meio de um ajuste para cima nos impostos dos super-ricos, que pagam praticamente nada no Brasil.


O texto de Hang é alarmista, escandaloso, prega o caos, mas, ao fim e ao cabo, apenas revela uma malandragem dos 1% mais ricos do Brasil que contam qualquer história da carochinha para que não haja justiça tributária no país, o que implicaria em menos impostos para quem trabalha e um aumento para a plutocracia que vive nababescamente.


Para mostrar que a publicação do Véio da Havan é um papo-furado, que apenas visa criar alarde nas redes e gerar desespero nos “fãs de bilionários”, a Fórum fez uma análise dos sistemas tributários em relação a milionários e bilionários nos EUA, União Europeia, Canadá, Japão, Argentina, México e Suíça, comparando-os ao do Brasil.


Comparação que acaba com o chororô

Nos EUA, os super-ricos enfrentam uma carga tributária consideravelmente mais pesada do que no Brasil. Por lá, as alíquotas de imposto de renda podem chegar a 39,6%, enquanto no Brasil param em 27,5%. Além disso, os norte-americanos pagam impostos significativos sobre ganhos de capital, dividendos e heranças, cobranças que praticamente inexistem para os bilionários brasileiros, que seguem blindados pela isenção de lucros e dividendos e pela falta de imposto sobre grandes fortunas.


Já na União Europeia, a realidade é ainda mais desigual em comparação ao Brasil. Os países-membros aplicam, em média, alíquotas de imposto de renda de 42,8%, com tributos pesados sobre dividendos, heranças e até patrimônio em várias nações, lembrando que os valores variam de país para país do bloco. Essa estrutura garante maior progressividade e redistribuição de renda, expondo o Brasil como um território que facilita a fuga de responsabilidade fiscal dos mais abastados.


Quando falamos do Canadá, um outro país lembrado pelo bom padrão de vida de seus habitantes, também o contraste fica reforçado: lá, os mais ricos chegam a pagar até 53,53% de imposto de renda, enfrentam taxação alta sobre dividendos e ganhos de capital e, mesmo sem imposto sobre heranças, compensam com tributos na transferência de ativos. No Brasil, esse mesmo grupo desfruta de brechas que aliviam consideravelmente sua contribuição, deixando a maior parte do peso nas costas da população trabalhadora.


No Japão, a discrepância se mantém evidente. Os ricos japoneses estão sujeitos a alíquotas de renda que ultrapassam 55%, além de pagarem tributos relevantes sobre dividendos e heranças, que podem chegar a 55%. Enquanto isso, os milionários brasileiros seguem beneficiados por uma estrutura fiscal que, na prática, os poupa de qualquer contribuição proporcional à sua fortuna.


Mesmo no México, que costuma ser visto como um país de economia emergente semelhante ao Brasil, os ricos arcam com uma carga tributária mais robusta. Com imposto de renda de até 35%, taxação de dividendos e uma carga efetiva superior, o sistema mexicano, ainda que tenha suas limitações, consegue exigir mais dos milionários do que o modelo brasileiro, marcado por isenções que privilegiam a elite. Ainda que lá não exista, assim como no Brasil, taxação sobre grandes fortunas, há pesados impostos sobre propriedades, o que faz com que esses bacanas paguem significativas alíquotas sobre ativos imobiliários.


Na Argentina, apesar de crises econômicas recorrentes, o cenário é semelhante: quem detém grandes fortunas paga mais. A alíquota de renda chega a 35%, há cobrança de imposto sobre dividendos e um tributo específico sobre grandes fortunas, algo sequer cogitado no Brasil de forma real até agora. Ainda que a tributação sobre heranças se equivalha à do Brasil, no conjunto, o sistema argentino onera mais quem tem muito dinheiro.


Por fim, até a Suíça, famosa por atrair fortunas do mundo todo, impõe uma carga mais alta do que o Brasil quando se considera renda, dividendos e imposto sobre patrimônio. Embora cantões suíços sejam flexíveis em heranças e ganhos de capital, o país consegue exigir mais dos super-ricos do que o Brasil, que, na prática, funciona como um verdadeiro paraíso fiscal doméstico.


O escândalo é terrorismo psicológico e manobra

Diante dos dados expostos, a única pergunta que fica é: para onde esses ricaços e magnatas iriam? Sair do Brasil para qualquer uma dessas nações ricas ou mesmo para países socioeconomicamente semelhantes ao Brasil acarretaria o pagamento de impostos maiores. E não é só isso.


A balela mostra-se ainda maior se pensarmos que essas pessoas, saindo do país, não retiraram seus negócios daqui. É uma lógica simples. O que faria o dono de um banco, instalaria suas agências todas em outro país e fecharia suas unidades e seu mercado por aqui? O mesmo vale para qualquer outro ramo. Quem produz seja lá o que for, vidro, pipoca, peças automotivas, móveis, eletrônicos, ou ainda os prestadores de serviço, o que fariam? Teletransportariam suas produções para a Europa, ou para o México? O próprio Hang, ele fecharia suas 180 megalojas em território brasileiro e passaria a vender de ursinhos de pelúcia a enxovais de cama, mesa e banho (fabricados na China) em novas unidades abertas nos EUA e no Canadá?


O que se extrai dessa histeria toda é a certeza de que a gritaria recomeçou agora quando o topo da pirâmide notou que uma possível mudança no sistema de impostos, que cobrará mais dos mais ricos, como em qualquer lugar do mundo, pode estar a caminho, o que apenas alinharia o Brasil às demais nações em termos de justiça tributária.


Confira a matéria original clicando aqui


Data original de publicação: 06 de Julho de 2025

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