Tempestade à vista no mundo do trabalho

Imagem: Unsplash

Por Antonio Martins | Outras Palavras

I.

Ou a vida ou a Economia. Em março, quando a covid-19 começava a se alastrar, Jair Bolsonaro estabeleceu esta disjuntiva absurda – e optou pelo segundo termo. Numa lógica quase-nazista, a população deveria se sacrificar, para que os negócios prosperassem. O governo recusou-se a adotar medidas de distanciamento social e sabotou, legal e simbolicamente, as tímidas ações de estados e municípios neste rumo. As consequências começam a surgir. Sanitariamente, o Brasil rivaliza apenas com os Estados Unidos, como campeão funesto de mortes e contágios. Temos apenas 2,7% da população do mundo, mas 12,9% dos óbitos por coronavírus – e a conta não para de crescer.

Porém, na Economia e no Trabalho, que o ex-capitão prometeu defender, arma-se outro resultado tenebroso. Temporariamente ocultas, devido a minúcias estatísticas, as taxas de desocupação irão disparar em breve, tão logo termine o auxílio emergencial votado pelo Congresso. O desastre maior não estará nos números, mas na vida real – como veremos ao longo do texto. Um exército de sem-emprego será forçado a buscar ocupações a qualquer custo. Encontrará empresas fechadas ou financeiramente comprometidas – e consumidores sem ânimo para gastar. O ministro Paulo Guedes já farejou o desastre, mas prepara a pior resposta possível, que já expôs em balões de ensaio. Há alternativas reais. Exigem romper três padrões: a concentração de riquezas, a financeirização e a reprimarização produtiva, que marcam o Brasil há décadas. Por isso, é preciso começar a debatê-las desde já.

II.

Do ponto de vista estatístico, o vasto tsunami de desocupação que se aproxima veloz ainda não chegou à praia devido a um critério conceitual da Sociologia (e à desatenção do Jornalismo…). Os índices de desemprego subiram relativamente pouco e não ganharam manchetes. Estávamos em 10,6%1, em fevereiro deste ano; no final de junho, passamos a 13,1%. Em quatro meses de crise, cerca de 1,4 milhão de pessoas perderam o posto de trabalho.

Mas esta onda modesta oculta outra, oito vezes maior. Após o início da pandemia, 11,5 milhões de brasileiros deixaram de fazer parte da População Economicamente Ativa – a PEA. Não são sequer classificados como desempregados, porque simplesmente deixaram de procurar trabalho. A grande maioria destas perdas deu-se na chamada “economia informal”, onde a PEA encolheu, em poucos meses, 15,1%. São, por exemplo, a empregada doméstica sem registro, mandada para casa sem remuneração; ou o pedreiro que faz bicos, também não registrados, para um pequeno empreiteiro, que perdeu os clientes. No universo dos formalizados, a redução da PEA foi menor: 6,7%. É que o governo ofereceu aos empregadores a oportunidade de licenciar ou reduzir a jornada de seus empregados – e subsidiou os salários dos atingidos. Nos dois casos, o gráfico abaixo permite enxergar o tombo produzido pela incúria das políticas de Bolsonaro.

O exame dos conceitos também é útil para examinar a devastação produzida, no mundo do trabalho, por várias décadas de financeirização e reprimarização da economia brasileira. Da população do país, que beira os 210 milhões de habitantes, 169 milhões têm a partir de 14 anos – e são classificados como População em Idade Ativa (a PIA). Destes, eram considerados economicamente ativos – ou parte da PEA – , em maio, apenas 55%. Como 13,1% da PEA estão desempregados, restam apenas 47,8% efetivamente trabalhando. E, mesmo neste universo, de cerca de 81 milhões de trabalhadores, 30,4 milhões estão, sempre segundo o IBGE, subutilizados. Restam, portanto, na condição de plenamente ocupados, pouco mais de 50 milhões – menos de 30% da PIA.

III.

Mais graves que os números é a realidade social que os conforma – e, em especial, o que ela poderá produzir nos próximos meses. Por serem parciais e caóticas, e por sofrerem sabotagem constante da presidência da República, as medidas de afastamento social no Brasil prolongam-se a perder de vista. Na China, um lockdown severo em Wuhan durou 76 dias, mas reduziu a pandemia a quase zero. Desde março, os pouquíssimos casos que eclodem provêm quase sempre do exterior. Aqui, as primeiras restrições às atividades produtivas começaram em meados de março. Passaram-se 120 dias, mas o número de contágios diários quintuplicou e é impossível saber quando a curva começará a declinar. Os danos à sociedade e à própria economia são, por isso, incomparavelmente maiores.

Dezenas de milhões de pessoas, que perderam o trabalho, viram-se como podem. Sobrevivem com os R$ 600 do Auxílio Emergencial, complementados com o apoio de parentes empregados e ações de solidariedade. Por terem deixado a PEA, não pressionam o mercado de trabalho. Não funcionam como o chamado “exército de reserva”, que faz concorrência aos assalariados ocupados e é usado pelos empregadores para rebaixar salários e direitos laborais.

Tudo isso mudará, a partir de setembro – mês em que será paga, gradualmente, a quinta e última parcela dos R$ 600. Sem o auxílio, milhões de informais serão obrigados a sair às ruas à procura de trabalho. Algo semelhante poderá ocorrer com os trabalhadores formalizados que foram licenciados ou tiveram jornada reduzida, quando terminar o subsídio estatal a seus salários. Uns e outros encontrarão uma economia agonizante. A mesma PNAD-Covid do IBGE registrava, que, já em meados de junho, apenas 67,4% das empresas estava funcionando normalmente. Outras 15% estava temporariamente paradas pela covid-19 e 17,6% haviam encerrado as atividades em definitivo.

Das que sobreviverem, boa parte estará às voltas com dívidas bancárias, queda abrupta de receitas (nos shoppings que reabriram, por exemplo, a maior parte dos lojistas relata redução de 90% no volume de vendas), impostos, aluguéis e contas atrasadas. As dificuldades serão ainda mais intensas nas pequenas e médias empresas – as que mais empregam. O quadro desolador inibirá os gastos das famílias, o que repercutirá sobre o comércio e a produção. Estará armada a tempestade perfeita, a espiral descendente típica das depressões econômicas, que se retroalimentam em círculos regressivos. O Instituto Brasileiro de Economia (Ibre), da FGV, prevê que a produção industrial recuará 11,5%, em 2020. Ouvidos pela jornalista Thaís Carrança, da Folha de S.Paulo, a economista Solange Srour, da ARX investimentos, previu que, ao final do ano, o desemprego baterá todos os recordes, e chegará aos 20%. Segundo ela, serão mais intensamente afetados os trabalhadores mais pobres e menos qualificados. Em certos setores (pense nos bancos), automação e inteligência artificial eliminarão postos de trabalho em massa. Em outros (imagine o comércio), a concentração empresarial e as vendas eletrônicas farão o mesmo. (…)”

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Fonte: Outras Palavras

Data original da publicação: 17/07/2020

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