Por: Glaucia Campregher
Bem sabemos que toda sociedade precisa se organizar para produzir seu sobreviver e, quando dá, seu bem viver. Essa organização começa pela divisão do trabalho, quem deve fazer o que – tendo em vista a maior eficiência de cada um mas, também, a do todo -, e ainda alguma acumulação. Só as sociedades que produzem em abundância e podem acumular, conquistam o luxo de aguentar tempos difíceis e de manter vivos seus membros mais jovens, mais problemáticos (nascidos com alguma falta) e mais velhos. É prova de riqueza poder manter os que não podem ainda, ou não podem mais, trabalhar. Mas a grande questão é que o trabalho é frequentemente mal dividido toda vez que pequenos grupos se organizam pra submeter grandes grupos, o que fazem usando métodos que vão da violência nua e crua à sofisticação do convencimento (alienação) pela cultura ou religião. Por causa dessa submissão massas de trabalhadores podem ser explorados e alienados do poder e de uma distribuição justa da riqueza socialmente produzida. O que seria uma distribuição justa? Uma que garantisse que cada um contribuísse “conforme suas possibilidades” e consumisse “conforme suas necessidades”. E não haveria nada de errado em consumir mais quando se contribui menos, se é o somatório que conta e ninguém acumula explorando ninguém. O que tudo isso tem a ver com “O último azul” de Gabriel Mascaro? Tudo…
Nosso filme começa com um local de trabalho – a Senhora de idade Tereza, interpretada por Denise Weinberg, é faxineira de um frigorífico – e logo a acompanhamos ao seu local de moradia. A cena passa de imediato o essencial sobre as sociedades capitalistas – que nelas temos de viver pra trabalhar mais que trabalhar pra viver, uma vez que passamos muitas horas trabalhando, outras tantas nos transportando pra ir e voltar ao local de trabalho e, por fim, temos pouco tempo livre para usufruir as riquezas produzidas e acesso limitado à estas pelo parco salário que dispomos. Na cena seguinte já vemos o ponto do filme, Teresa alcançou uma idade que a obriga a ir para uma habitação coletiva organizada pelo Estado. De novo algo sabido em diversas sociedades, que a produtividade dos velhos não paga mais seus gastos – suas possibilidades se reduzem enquanto suas necessidades aumentam. O que a distopia do filme coloca é que o Estado e as famílias teriam muito a ganhar se pudessem agrupar esses elementos, mesmo forçosamente. Economia de escala, meu velho!
Será? Será que é realmente um problema no capitalismo atual ter riqueza o suficiente para arcar com nossos idosos? Será que devemos aceitar o discurso do sistema que, se não é encarcerá-los pra que fiquem mais baratos, é fazê-los trabalhar até morrer como andam a fazer as inúmeras reformas das previdências mundo afora? Ou quem sabe devamos voltar ao costume antigo japonês, bem retratado no filme “A Balada de Narayama”, onde filhos levavam seus pais chegados aos 70 pra morrerem sozinhos no alto das montanhas? Nada disso. Primeiro que a riqueza produzida pelo trabalho passado de milhares de gerações desenvolveu a indústria e a tecnologia o suficiente para que hoje todos possamos trabalhar menos, nossos velhos nada e ainda assim continuar a conviver conosco. Segundo que os velhos podem não precisar trabalhar (ter um emprego formal) e ainda assim ter alguma função social, até porque o trabalho passado o permite. Isso porque não só a humanidade produziu riqueza, mas ciência, e com ela a longevidade e também o aumento das possibilidades dos que estão a viver mais. Nosso filme ilustra bem isso. Pode ser que alguns mais idosos se assustem num primeiro momento com as novas tecnologias, ou com alucinógenos ancestrais, mas se abrirem mão de certos preconceitos (incentivados pelo capital) aprendem rapidinho a lidar com ambos!
Isso de abrir mão dos preconceitos é fundamental, e também muito difícil… Frequentemente, eles nos enredam num certo torpor mental que nos paralisa e só pode ser rompido se conseguimos unir uma motivação interna muito forte – como o desejo de Teresa de voar antes de morrer e/ou ser encarcerada – e um elemento externo facilitador – no caso de Tereza, o encontro com Cadu (Rodrigo Santoro) que significa o que o aleatório pode fazer por nós quando nos expomos a ele, e que é uma quebra de paradigmas que acaba por quebrar nossas resistências. Com Cadu Tereza aprende a viajar, no sentido objetivo e subjetivo, ela aprende a dirigir um barco e a não dirigir todos os seus pensamentos, a se deixar levar numa onda produzida pela baba azul de um caramujo. Esse elemento pessoal, pode ser qualquer coisa para cada um de nós, o fato é que temos de deixar algo entrar nos nossos olhos e abri-los…
Uma vez de olhos abertos, Tereza viaja e, como sempre, a viagem é mais interessante que seu destino. Durante a busca pelo vôo sonhado Tereza vai tendo encontros verdadeiros, pessoas cujas histórias se tocam, até chegar a um encontro amoroso – mais lúdico que romântico, e mesmo muito prático – com uma mulher. Pra mim, esse encontro amoroso acontece no filme pra reforçar a mensagem de que somos capazes de muita coisa quando nos livramos dos preconceitos adquiridos por nós e frequentemente contra nós. A amante de Tereza vende bíblias digitais, o que pra mim é mais uma mensagem. Uma que é quase uma gozação – como Marx fazia em sua época com as bíblias impressas -, de como no capitalismo Deus e sua palavra não escapam de virar mercadoria.
Por fim, há algo no filme que também está ali por um motivo, mas passa como um mero detalhe. Mas um detalhe daqueles – como dizia Guimarães Rosa no Grande Sertão Veredas (que bem podia ser a Grande Floresta Veredas) -, onde Deus mora, e também o Diabo… Esse detalhe é o sonho de Tereza – o de voar (cuja metáfora de se libertar é bem óbvia) – ter um par no avião que, em tempos passados, passava no céu com um rabo amarrado fazendo alguma propaganda. No filme ele propagandeia uma super mentira que, dialeticamente, pode bem ser uma verdade – “o futuro é de todos”. Na realidade capitalista cada vez mais injusta que vivemos o futuro é de uns poucos. Não é dos velhos e nem mais dos novos – que não à toa têm cada vez mais menos filhos. Pior, estamos perto de que a espécie humana inteira não tenha futuro sobre a Terra. (Filmar na Amazônia serve também pra nos lembrarmos disso). Contudo, talvez não seja isso não. Talvez tenhamos futuro sim, nós todos, os velhos também. Mas isso se, e somente se, abrirmos os olhos pras nossas possibilidades e encararmos aqueles que pretendem limitá-las. Se ousarmos desobedecer às leis do Estado ou, mais difícil até, as do mercado, que nos confinam e empobrecem mesmo quando há riqueza e liberdade ao nosso alcance.
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Glaucia Campregher é professora aposentada de economia, ex-professora da UFU, UFRGS, UFBA e apaixonada por cinema.
Publicado em 15/07/26
ABET Associação Brasileira de Estudos do Trabalho